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Artigo – Onde estão os professores inovadores?

A ideia de usar mais tecnologia nas salas de aula ainda é, de maneira geral, incompreendida. Muitos teóricos, gestores educacionais, professores e alunos acham que inovador é instalar uma lousa digital no ambiente, trocar o quadro branco pela tela de LEDs e fazer surgirem desenhos e textos nela. Aos que ainda sonham com o momento em que isso vai se tornar realidade em algum lugar do mundo, sinto desapontar: essa expectativa está errada.

A responsabilidade por esse entendimento divergente do que realmente é oferecer educação inovadora, não chega a ser exclusiva dos professores. Eles foram formados assim, por uma geração de docentes que também foi preparada a partir dos moldes tradicionais. Em geral, é difícil para eles imaginar como equipamentos e soluções podem ajudar na tarefa de transmitir conhecimento — e não atrapalhá-la. “É preciso ter o DNA da inovação para fazer a diferença na sala de aula”, recomenda Karen Cator, CEO da ONG Digital Promise, que reúne educadores, pesquisadores e empresários para acelerar as inovações no ensino usando a tecnologia.

Mas como, num momento em que o Brasil discute a qualidade da educação e maneiras de melhorar o sistema público durante uma intensa crise financeira? É possível esperar que os professores de uma nação do tamanho da nossa estejam alinhados e tenham acesso às ferramentas que, para alguns são parte do cotidiano, mas para outros, não passam de uma utopia? Imagine defender a inovação em sala de aula por meio da tecnologia numa escola de alguma região longínqua do interior do país, onde um simples ventilador pode ser considerado um artigo de luxo? Ou falar sobre esse assunto num local em que um professor concentre quatro turmas, de séries diferentes, na única sala da escola improvisada existente num raio de centenas de quilômetros?

Precisamos entender o contexto socioeconômico onde acontece a educação, envolvendo pais e estudantes e educadores, e compreendê-lo quando pensarmos na maneira de preparar os docentes. Não podemos nos desconectar da realidade caótica e desigual em que vivemos e conceber um professor, um ambiente escolar e um aluno padrões, ideais e infalíveis, onde todos tenham um desempenho exemplar, disciplinado, previsível.

Felizmente, Karen Cator estava certa: ninguém é capaz de formar pessoas. Os desafios da realidade e das circunstâncias em que se vive são os componentes da formação pedagógica. Nenhum treinamento sobrevive ao primeiro dia de trabalho, onde as condições adversas se mostram completamente diferentes do que se viu na preparação.

Essas adversidades fazem o professor moderno ter que recorrer à uma definição criada nos anos 1970 pelos biólogo e filósofo chilenos Francisco Varela e Humberto Maturana: a autopoiese. Ela sugere que os indivíduos criam-se e transformam-se a si mesmos, a partir da condição que dispõem no momento. Trazendo para a educação, é o mesmo que dizer que não há um padrão a ser imposto para a formação de professores inovadores. O que se consegue é empoderar uma pessoa para que ela possa agir e se adaptar às mais diversas circunstâncias. Dessa forma, não precisamos mais desenvolver competências, mas incentivar a tomada de atitudes criativas e coerentes, criando oportunidades fantásticas e sustentáveis. O novo processo educacional vai exigir a co-criação de conhecimento entre professores, estudantes e sociedade, ao invés dos convencionais transmissores de conteúdo.

Algumas soluções simples e gratuitas, disponíveis na própria internet, já facilitam essa mudança de orientação nos processos educacionais. Por meio de guias práticos e videoaulas, muitos educadores já estão transformando as suas realidades e as dos seus próprios alunos ao compreender que a tecnologia deixou o mundo menor, as bibliotecas maiores, e as pessoas mais próximas, ou seja, não é mais relevante para o século XXI tratar como massa um universo cada vez mais particularizado de mentes, questionamentos e possibilidades de troca de conhecimento. A forma de ensinar mudou, e ela não cabe mais no molde de sempre.

por Vilson Martins Filho, Doutor em Engenharia e Gestão do Conhecimento e Coordenador Executivo de Educação da Teltec Solutions

Vilson Martins Filho

Vilson Martins Filho

Um comentário

  1. João Neumann Neto

    Tenho 56 anos, muitos deles passados em salas de aula de vários níveis, do fundamental a especialização. Em escolas públicas paupérrimas e privadas abastadas. E mesmo quando havia muito recurso, tela digital, tempo e dinheiro, achei dificil aplicar as tecnologias.
    Sou analista de sistemas e desenvolvedor por mais de 30 anos, sempre atualizado, ajudei na construção de ambientes virtuais e EADs e mesmo assim vejo a tecnologia como algo controverso quando se trata da sala de aula.
    A uns 10 anos, creio eu, surgiu o powerpoint. Meu Deus, isso vai inovar a sala de aula. Professores, mesmo os leigos em informática, poderão tornar suas aulas mais atrativas e dinâmicas e lá foram todos transformar suas transparências (embora alguns ainda as usem kkkkkk) em apresentações.
    E o que aconteceu? Hoje alunos se reunem para pedir aos professores de universidade que parem de usá-los. Que aulas ficam enfadonhas, powerpoint dá sono, Pedem que volte a escrever no quadro (seja ele de giz (sim, ainda existe), branco, ou digital.
    Ser professor não é fácil. Fiz levantamentos e notei que para criar uma aula de 45 minutos, levo pelo menos 3 horas para chegar ao nível que gostaria de receber se fosse aluno. E como sou professor de engenharia e tecnologia, não posso usar a aula do semestre passado para o novo. Significa que para as aulas de uma turma em um semestre, cerca de 40 horas, preciso encontrar 150 horas apenas para criação.
    Não é fácil.

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